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Sacramento e Depressão


Sem dúvida nenhuma, o grande tesouro que a Igreja Católica possui são os sacramentos. Sacramentos são Sinais do amor de Deus pela humanidade, e isso não esgota o sentido que essa palavra carrega, uma vez que os sacramentos não são apenas sinais do amor de Deus, mas são o próprio Deus nesses sinais. Assim, para a doutrina católica, a hóstia consagrada não representa Jesus. Ela é Jesus. O sacramento da reconciliação não simboliza o perdão dos pecados, mas realmente perdoa os pecados.
Jesus quando passou pelo mundo, curava as pessoas de suas enfermidades e mazelas. Ele continua fazendo a mesma coisa através dos sacramentos da Igreja .
A nosso ver, dois sacramentos, em especial, podem ajudar na facilitação da cura da depressão: a eucaristia e a reconciliação.
Antes de tudo, vamos entender o sentido da palavra “cura”. Em português, não usamos essa palavra no seu verdadeiro sentido etimológico, mas naquele desgastado pela excessiva mistificação, o que prejudica a sua real compreensão. O verbo vem do latim curare que significa cuidar, tratar, e o substantivo cura nos leva ao sentido de cuidado, tratamento.
É muito triste assistir ao grande número de cristãos que se preocupam tanto em cuidar e tratar o corpo e não se dedicam com o mesmo empenho em “curar” a alma. Pior ainda é quando não sabem ou não procuram conhecer as disposições necessárias para se receber com dignidade tão maravilhosos presentes divinos, por isso o conselho do apóstolo: “Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação” (1 Co. 11,28-29).
Parece terrível, mas é isso. Os mesmos sacramentos que podem servir para nossa cura e salvação podem se tornar também a nossa condenação se não nos aproximarmos deles com as disposições de alma necessárias: “Eis porque há entre vós tantos fracos e enfermos e muitos morreram” (1Co.11, 30).

Eucaristia e cura da depressão

O grande mistério da eucaristia reside no fato de que ali no altar é o próprio Cristo que se oferece a nós em sacrifício como vítima sem mácula (Heb. 9,14). Se em sua vida terrena Jesus curava as pessoas, agora ele, pela eucaristia, começa a nos curar a partir de dentro, realizando uma revolução interior que culmina com nossa plena libertação. De fato, “ele derramou seu sangue como preço do nosso resgate e purificação de todos os nossos pecados”9.
Em que sentido a eucaristia pode significar alívio ou cura de um doente que sofre com a depressão? De várias maneiras:

1. A eucaristia implica uma mudança.

Conforme o Concílio de Trento, “pela consagração do pão e do vinho opera-se a mudança de toda substância do pão na substância do Corpo de Cristo Nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue; esta mudança, a Igreja Católica denominou-a com acerto e exatidão “transubstanciação”10. Quando comungamos, começa em nós uma operação de transformação. Nossos sentimentos se elevam, nossa vida se regenera, uma alegria santa começa a tomar conta de nós, como tomou conta da primeira santa nascida em terras norte-americanas:
Elisabeth Ann Seton 11. viveu entre os anos de 1774 a 1821. Era ainda protestante quando participou pela primeira vez de uma missa na Igreja Católica em sua primeira visita à Itália. Quando o sacerdote elevou a hóstia consagrada, sua amiga, que estava a seu lado, disse baixinho: “Esse é o Corpo de Cristo”. A futura santa ficou muito agitada com essas palavras e mais tarde escreveu:
Como seríamos felizes se crêssemos no que essas boas almas crêem. Possuem Deus no Sacramento e ainda Ele permanece em suas igrejas e também é levado aos doentes! Oh, meu Deus! Quando eles passam com o Santíssimo Sacramento debaixo da minha janela, enquanto sinto tristeza pela minha situação, eu não posso controlar minhas lágrimas quando penso: Meu Deus, quão feliz eu seria, se pudesse encontrá-lo na igreja como eles o encontram...

2. Ficamos unidos a Cristo.

O deprimido sofre porque está profundamente ligado a seus pensamentos obsessivos que o levam para dentro de si mesmo, e por isso não consegue ter esperança. A eucaristia nos leva à comunhão com o próprio Cristo: “Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim” (Jo. 6,57).
Depois de ter comungado, já não sou eu sozinho que volto para os meus afazeres. Agora somos dois: Eu e Cristo. Assim, há hora do desespero e da angústia eu posso estar seguro que ele me acompanha e me ajuda quando minhas forças declinarem. Depois da comunhão, deveríamos dizer: “Agora tenho comigo, o próprio Senhor Jesus”. Isso já seria suficiente para qualquer processo de cura, uma vez que a Palavra de Deus declara: “Quem possui o Filho possui a vida” (1Jo. 5,12).

3. Ficamos unidos aos nossos irmãos

Talvez a pior coisa que nos pode acontecer é descobrir que não temos para quê viver, não temos um alvo, um objetivo a alcançar, ninguém para amar, ninguém para cuidar. O microbiologista René Dubos, da Universidade Rockefeller, pesquisou pessoas que chegaram aos cem anos de idade e descobriu que todos tinham características em comum: além de possuírem grande vontade de viver e cultivarem a alegria, também se relacionavam com outras pessoas.
Um dos efeitos do contato social, além da redução da solidão, é o fortalecimento do sistema imunológico. Comunhão com os irmãos, portanto, traz saúde e bem estar. Os membros da comunidade proporcionam vida e quando me relaciono com eles, recebo uma porção significativa de vida. É por isso que TODA missa é “missa de cura”. No “abraço da paz”, na “procissão da comunhão”, nas mãos dadas para rezar o Pai Nosso, enfim, em toda troca de afeto, no contato com os irmãos, na comunhão de sentimentos, há cura do isolamento, da solidão e da angústia. Eis porque nenhuma pessoa que sofre de depressão deveria faltar à mesa da comunhão, especialmente aos domingos, uma vez que na abertura ao outro está a cura da solidão e do egoísmo “pois, como em um só corpo temos muitos membros e cada um dos nossos membros tem diferente função, assim nós, embora sejamos muitos formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro” (Rm 12,4-5)

Sacramento da Reconciliação e cura da depressão

Um outro meio eficaz de cura é o sacramento da reconciliação, conforme doutrina apostólica: “confessai os vossos pecados uns aos outros... para serdes curados” (Tiago 5,16).
Se confessar os pecados é sinal de cura, calá-los é sinal de doença: “Enquanto calei o meu pecado, os meus ossos foram se consumindo” (Salmo 31,3).
O deprimido se sente culpado, e a culpa, quando excessiva, é destrutiva. Por outro lado, a experiência que o homem tem de ser culpado, é positiva, uma vez que o leva a ter consciência da sua carência de Deus e o faz ver o quanto se afastou de seu projeto original de felicidade e plena realização.
Nesse sentido, a confissão elimina a culpa “negativa” e através da reconciliação, faz o homem retornar ao caminho original, libertando-o também da culpa “positiva”.
O gesto do sacerdote em “absolver” o pecado não é simplesmente um gesto terapêutico, mas um ato de salvação 12. A OMS (Organização Mundial da Saúde) define saúde como bem estar físico, psíquico e espiritual. O sacramento da reconciliação é, nesse sentido, a plena restauração do homem à sua totalidade através do amor gratuito e generoso que restabelece a relação rompida pelo pecado.
A grande chave para a compreensão desse sacramento infelizmente permanece ignorada por grande parte de cristãos. É preciso entender que a maior finalidade da absolvição recebida no sacramento da reconciliação é fazer-nos entender que não mais precisamos permanecer na morte, que ela foi vencida e que agora podemos mudar nossa relação com a vida, mudando de direção (conversão) e é nesse sentido que a confissão é um sacramento de cura, naquele sentido que demos no início a essa palavra: tratamento, cuidado.
Uma vez tratadas as nossas feridas, esforcemo-nos para andar por outros caminhos, onde o pecado, a culpa, enfim, toda espécie de mal, não nos machuque mais.
É assim que os sacramentos da reconciliação e da eucaristia são complementares entre si e úteis na cura da depressão. Se bem recebidos, esses sacramentos nos curam e nos devolvem a paz.

Sugestões para transformar os sacramentos em “fonte de cura”

1. Jamais deixe os sacramentos. Deixá-los é o mesmo que deixar Jesus e “quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo 5,12b).

2. Procure receber os sacramentos com consciência, não irrefletidamente: “que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação” (1Co. 11,28-29).

3. Receba os sacramentos com fé, pois “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb. 11,6)

4. Depois de ter recebido algum sacramento, lembre-se que você se torna também um sacramento (sinal) de Jesus aos homens, “sendo irrepreensível e inocente, filho de Deus íntegro no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilha como luzeiro no mundo, a ostentar a palavra da vida” (Fil. 2,15-16).

5. Por último, viva em ação de graças e sinta-se a pessoa mais privilegiada deste mundo por ter à sua disposição tão grandes dons de Deus que são os sacramentos. Cada vez que necessitar, eles estarão lá, à sua disposição.

9. TOMÁS DE AQUINO Opusculum 57 In festo corporis Christi, Lect. 1-4
10. DS 1642
11. CRUZ, Joan C. Eucharistic Miracles, p.xvii
12. CATALAN, Jean F. Depressão e vida espiritual, p. 74